Calote pode ser inevitável para país com déficit fiscal elevado, diz Pimco

Cordell Eddings, Bloomberg

Taxas de créditos restritivas e medidas de austeridade fiscal que desacelerem o crescimento econômico podem deixar a inadimplência como a “única saída” para alguns países com dívidas e déficits crescentes, segundo a avaliação de Bill Gross, da Pacific Investment Management Co. (Pimco).

“Observadores dos mercados de crédito e renda variável vêm se perguntando se, em muitos casos, os países já não foram longe demais e se a única saída não seria a inadimplência ou a palavra usada de forma mais polida ‘reestruturação'”, escreveu Gross em seu panorama de investimentos para junho, divulgado ontem, no site da empresa de Newport Beach, Califórnia. “Pode não ser possível para um país escapar de uma crise de dívida reduzindo déficits.”

Pressionados pela desvalorização do euro e o aumento no rendimento dos bônus, líderes europeus acertaram neste mês um pacote de empréstimos sem precedentes, de quase US$ 1 trilhão, para evitar a disseminação da crise das dívidas soberanas, que teve seu ponto de origem na Grécia. O governo grego comprometeu-se a seguir medidas de austeridade equivalentes a quase 14% do Produto Interno Bruto (PIB) em troca dos fundos de resgate da União Europeia (UE).

“Com os rendimentos atualmente restritivos, de 300 a 350 pontos-base acima da taxa Libor, sendo impostos tanto pela UE como pelo FMI, não há um cenário razoável que permitiria à Grécia ‘ desenvolver ‘ sua saída”, afirmou Gross, que é cochefe de investimentos da Pimco e administrador do maior fundo mútuo mundial.

A taxa interbancária do mercado de Londres (Libor), que os bancos pagam por créditos em dólares de três meses, subiu ontem pelo 12º dia consecutivo, para 0,538%, e atingiu o maior patamar desde 6 de julho, segundo a Associação dos Banqueiros Britânicos. A diferença entre a Libor e taxa de swap de empréstimos um dia (OIS, na sigla em inglês), em dólar, um indicador da relutância dos bancos em conceder empréstimos, estava em 30,7 pontos-base, abaixo dos 31,1 pontos-base de quarta-feira.

Para o economista Robert Mundell, ganhador do Nobel, reestruturar as dívidas pode ser algo “inevitável” nos próximos cinco anos para um ou dois países que compartilham a moeda comum europeia.

“A reestruturação das dívidas pode ser necessária para um ou dois membros do euro frágeis em termos fiscais”, afirmou ontem, em conferência em Varsóvia. “Em cinco anos, pode ser inevitável, mas isso não significa a desconstrução do euro, apenas significa uma reestruturação de dívida.”

Mundell ganhou o Nobel de Economia em 1999, o ano de introdução do euro, por seu trabalho sobre taxas de câmbio e mobilidade de capital é creditado como tendo desempenhado papel significativo na criação da moeda comum.

No panorama de investimentos para junho, Gross considera provável conseguir retornos anualizados entre 4% e 6% para um “portfólio diversificado de ações e bônus”. A Pimco avalia que haverá uma redução no papel mundial da economia dos Estados Unidos, com maior regulamentação governamental, consumo menor e crescimento mais lento.

“Os investidores precisam respeitar a viagem bastante tortuosa dos próximos meses e anos pela frente pelo que ela é: um processo de desalavancagem que teve como base dívidas demasiadas e pouco crescimento para servi-las”, escreveu Gross.

A Moody ‘ s Investors Service destacou em comunicado na quarta que a classificação de crédito dos bônus do governo dos EUA, no máximo patamar, ficará sob pressão, a menos que medidas adicionais sejam tomadas para reduzir os déficits recorde projetados. Os EUA ainda mantém sua capacidade creditícia pelo seu “alto grau de força institucional e econômica”, segundo a agência avaliadora nova-iorquina.

Os EUA estão entre os países em desenvolvimento que estão “soando alarmes que poderiam acabar levando-os a orçamentos menos desequilibrados e déficits menores como porcentagem do PIB”, escreveu Gross no comunicado. “Investidores, incluindo a Pimco, têm fortes dúvidas de que os déficits fiscais dos EUA poderiam levar a taxas de crescimento elevadas no futuro.”

Por Valor Econômico

27/05/2010 00:00:00

MP Editora: Lançamentos

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