A APET, o “efeito do peixe grande” e a construção do reconhecimento fora do centro
Por Marcelo Magalhães Peixoto
23/01/2026 8:42 am
Em Davi e Golias, Malcolm Gladwell retoma uma teoria clássica da psicologia educacional, desenvolvida por Herbert Marsh, conhecida como efeito do peixe grande em lagoa pequena (Big-Fish–Little-Pond Effect).
Segundo essa abordagem, indivíduos e projetos que se desenvolvem em ambientes menores, menos prestigiados e fora dos grandes centros institucionais tendem a construir maior autonomia, identidade própria e capacidade de inovação do que aqueles inseridos desde cedo em estruturas amplas, altamente hierarquizadas e simbolicamente consolidadas.
A ideia central é contraintuitiva: estar fora do centro pode ser uma vantagem estrutural, não uma deficiência.
Esse raciocínio ajuda a compreender, com maior precisão, a trajetória da APET – Associação Paulista de Estudos Tributários.
A APET não nasceu dentro de uma universidade pública tradicional, nem tampouco como projeto institucional formalmente abrigado em uma grande estrutura acadêmica privada.
Ela surgiu a partir de uma inquietação intelectual concreta, alimentada pelo desejo de criar um espaço próprio de estudo, diálogo e formação em Direito Tributário. Seu fundador havia se formado em uma faculdade então pouco conhecida no cenário acadêmico nacional, o que contribuiu para uma trajetória marcada por autonomia intelectual, protagonismo real e liberdade de experimentação.
Esse dado não é meramente narrativo. Ele é explicativo.
Sob a lógica do efeito do peixe grande em lagoa pequena, a APET nasce em um espaço no qual havia liberdade intelectual, ausência de amarras simbólicas e possibilidade concreta de construção de identidade própria.
Não precisou disputar reconhecimento dentro de um sistema fechado; pôde construir seu próprio ambiente de validação, definir suas agendas de pesquisa, escolher temas difíceis e assumir riscos intelectuais que dificilmente seriam possíveis dentro de estruturas acadêmicas já consolidadas.
Advogados, contadores e outros profissionais passaram a se reunir em torno de um projeto comum, mais atento à densidade técnica do que ao prestígio formal.
No início, tudo isso parecia mais um sonho, talvez até um devaneio ou uma utopia.
Um projeto sem garantias, sem chancela institucional prévia e sem a segurança que costuma acompanhar iniciativas acadêmicas tradicionais. Com o tempo, porém, essa fase foi ficando para trás, o sonho deu lugar a um projeto com pauta, método e escopo definidos.
Esse espaço inicialmente periférico deixou de ser apenas um lugar de debate e tornou-se, na prática, uma escola de Direito Tributário.
Hoje, a APET figura entre as entidades que mais oferecem cursos de extensão e de especialização, reunindo alguns dos principais nomes do Direito Tributário brasileiro, com programação contínua, plural e tecnicamente rigorosa.
Essa atuação formativa, construída de modo gradual, muitas vezes improvisado, mas sempre com seriedade, tornou-se um dos pilares da identidade institucional da entidade.
O reconhecimento acadêmico formal veio depois, como costuma ocorrer. Recentemente, a Revista de Direito Tributário da APET obteve a qualificação A2, um dos mais altos estratos do sistema Qualis/CAPES, e a Revista de Direito Contábil e Fiscal, ainda jovem, alcançou a classificação B1.
Trata-se de um reconhecimento relevante, não apenas pelo resultado em si, mas pelo percurso: revistas construídas fora do eixo tradicional, com trabalho coletivo, critérios científicos rigorosos e grande esforço editorial.
Nada disso foi fruto de um projeto originalmente confortável ou institucionalmente protegido. Ao contrário, foi resultado de improviso responsável, muito trabalho e persistência, características típicas de quem começa fora do centro e precisa criar, quase do zero, as próprias condições de existência.
É o próprio Gladwell quem ajuda a compreender esse percurso ao recordar a experiência dos impressionistas na Paris da década de 1860. Artistas como Claude Monet, Renoir e seus contemporâneos estavam fora da Academia, fora do mercado e fora do reconhecimento institucional. Reuniam-se em cafés, expunham à margem do Salon e eram tratados como amadores ou desviantes.
Justamente por estarem fora do centro, puderam experimentar, errar e insistir, até que, mais tarde, aquilo que nasceu como exclusão se transformasse em cânone. O impressionismo não triunfou apesar de ter surgido à margem, mas em razão disso.
Tal como sugere Gladwell, a trajetória da APET confirma que nem sempre a melhor estratégia é entrar cedo na grande lagoa. Em muitos casos, é justamente a experiência fora do centro que permite construir identidade, densidade intelectual e capacidade efetiva de transformação, até que, em algum momento, o próprio centro passe a reconhecer aquilo que nasceu à margem.
Mini Curriculum
Mestre e Doutorando em Direito Tributário pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Presidente-fundador da APET – Associação Paulista de Estudos Tributários.
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